É notória a crise econômica que se instalou no país, principalmente após a tentativa do governo de impor uma agenda econômica dita liberal. Após a proclamação do resultado das eleições de 2018, nem “o mercado” mais pessimista projetaria que estaríamos abaixo do subsolo desse prédio chamado decência. O dito mercado, outrora vislumbrado com a ruptura de um sistema político que perdurou treze anos no poder, amarga hoje as consequências de uma aventura ao desconhecido – ou talvez nem tão desconhecido assim –, ao bárbaro, à ignorância, ao ódio e à intolerância. Decerto, o referido mercado – em tensões eleitorais – não se faz presente sozinho, mas ecoa e reverbera o som que melhor lhe convém para os diversos seguimentos da sociedade, controlando – como se fosse um diretor – qual será o próximo capítulo da novela, quem será o próximo mocinho ou vilão.

A bem da verdade – em que pese os indicativos de retração econômica antes da covid-19 –, a pandemia acelerou sobremaneira esse processo de degradação econômica, deixando, ainda mais claras, as facetas de um governo “exótico”. As privatizações prometidas, pelo menos boa parte delas, não foram sequer apresentadas, aliás o governo criou uma estatal – Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional, ENBPAR – para privatizar a Eletrobrás; as reformas prometidas, pelo menos a maioria, não vieram e as apresentadas – como a PEC32, reforma administrativa – provavelmente será aprovada com um texto mais modesto que o texto original do governo; os ministérios os quais, pelas promessas de campanha, seriam apenas quinze, hoje, são vinte e três. O “mercado”, obviamente, não gostou disso.

O desemprego, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos meses de maio, junho e julho, chegou a 14, 1 milhões e a inflação de 8,59% – segundo projeções do boletim FOCUS do Banco Central – passou a doer, não apenas no bolso, mas também no peito, na dignidade, na decência. Com tudo isso, em quase ¾ de mandato do governo Bolsonaro, o Brasil sente – depois de ter saído do mapa da fome em 2014, segundo a Organização Mundial da Saúde – a dor da fome a qual dói, conspurca e avilta o indivíduo das castas mais vulneráveis da sociedade. O prato com comida vai ficando mais prato e menos comida, mas não é apenas de comida que o Brasil está com fome.

A fome que, embora não sintamos tão evidentemente agora – uma vez que necessidades fisiológicas vociferam em nossa alma –, se faz presente é a fome de decência. O Brasil deixou de ser decente no governo Bolsonaro, não que ele fosse o único governo a causar esse sentimento, mas é o único que faz de modo doloso – e com um prazer quase que sexual –, se há algo que o governo atual, nesses quase três anos, faz bem é brincar com a decência do país.  O respeito internacional já não mais existe, estamos em um barco à deriva, não dos outros, mas de nós mesmos, tornamo-nos pária no mundo, chacota global enquanto o governo fincava a bandeira da raiva entre países parceiros à revelia de tudo que construímos nesses últimos anos. O governo Bolsonaro foi – como um corpo internacional – xenófobo, racista, negacionista e mentiroso no trato com todos – inclusive com os seus –, somos um paciente agonizando e a administração de medicamento se dá por envenenamento do chefe de equipe. Não temos decência.

O “tiozão do pavê”, denominado Jair Messias Bolsonaro, nunca fora tão feliz: consegue reproduzir suas piadas e maldades, antes camufladas, por todos os cantos desse território, está num sonho em que tudo se pode, nada se deve. Há quem ainda esteja ao seu lado, seja por interesse ou ideologia, e isso é a prova mais cristalina que a nossa fome é, também, de decência. Se o governo Bolsonaro fosse uma voz solitária em nosso país, este paciente já se encarregaria de expulsar esse vírus, porém o referido paciente faz questão de permanecer doente, talvez querendo morrer mais rápido. E numa divisão bem definida entre povos, castas, seguimentos, sociedade e “mercados” vamos vagando em direção ao paraíso, para uns, e ao purgatório para outros, ou seja, dois extremos que – em tese – querem o bem desse paciente.

Enquanto nada muda, o rei continua seguindo com os mesmos adereços, as mesmas convicções e os mesmos devaneios que o colocaram no centro do poder, nos holofotes, mesmo sendo ele, Jair Bolsonaro, apenas um figurante do décimo terceiro capítulo da novela mexicana. Embora alguns jornalistas insistam em dizer que o “rei absolutista” do palácio do planalto está nu – parafraseando o conto de Hans Andersen –, eu ouso a dizer que ele sempre esteve nu. A crise está além dos preços, é moral, ética, de decência e o Brasil não é assim, apenas, está assim.

A fome de comida, que tanto nos preocupa, dói na alma, a de decência dói no ego.

Victor Nascimento – Jornalista e Cronista